08/08/2007

Petecas na buça: castigo vem a cavalo

Conheci o escritor João Filho. Autor de "Encarniçado".

Uma pancada. Não havia mais exemplares do livro. Pedi emprestado. E João, muito boa gente, confiou. Tirei xerox. Encadernei o encarniçado. Muito bom livro. Da fase "Sepultura", hard, disse ele. Do caralho, adjetivo espontâneo, logo na rua, que li. E foda no início; petecas na buça de uma véia chamada Lurdes:

"A véia tinha esquecido de desovar as petecas, daí algumas estarem coladas na cabeça do pau laxo de Surdomeira. ela catou duas, esticou uma na perícia que neófito não crê. enquanto ela cafungava abri com a peixeira o tórax do velho. cena: roncadura de porco na hora da dura! a véia não teve tempo de juízos, refiz o mesmo ato. só que nela dei duas: uma na buça (quem sabe não desembucetava outras petecas?), outra veio debaixo do queixo. na primeira não sei se a véia esperneou ou teve gozo. peguei pelo cais, desabitado nas desoras, banhado em sangue lavei-me numa nesga do Rio".

















Bati um papo com ele. Pedi conselhos. Muito boa gente. Encontrei em seu Diadorim, Rilke, Glauco, Sérgio Sant´anna, Rubem Braga, Rubem Fonseca e uma indicação: João Antônio. "Malaguetas, Perus e Bacanaço". Comentei com ele pessoalmente. Mas irei postar algo que me intriga: como ele, João Filho, possui um vocabulário desses tão solto na língua? Corre fácil essas construções. Raro. Deve ter ralado pra caralho. Depois insisto em seu blog. Pois até não terminei de ler seu livro. "Peguei pelo cais, desabitado nas desoras"...

Mas vê esse outro João. O Antônio. Parece cantar. Bem que ele disse. Parece música. Essa cena de Malagueta se defendendo com esmolas; a última instância das virações:

"Trabalhava no chão. Estirar-se, arregaçar as calças, expor o inchaço que ia começando nas pernas encardidas. O sapato furado expunha barro. O sapato tinha os saltos comidos de todos. Dando sorte e com sossego, mas com muita picardia, cara-de-pau e mão estendida, pingava alguma grana. Já se ganhava, eta meu Bom Jesus de Pirapora! Da miúda saía para a graúda e ia se bater lá na sinuca".


Dá pra encontrar esse tipos bem próximo do sebo de João Filho. Ali, ao lado. No bar "O COLON", em frente ao Forte de São Pedro. Vi um bêbado dependurado. Tirando um sono dentro da cabine de telefone. Uma ostra bêbada da Telemar. Quem já viveu pela noite enxerga Malaguetas, Perus e Bacanaço por aí. E João Antônio viveu tudo que escreveu; a "literatura tem ralar e não relar". Interessante.

Noutro dia bati na porta do Sebo "Cacareco". Encontrei "O lobo da estepe" de Hesse. Um Brainstorm quando se escuta Led Zeppelin pela primeira vez; desde "Demain"; uma experiência na vida; puta-merda. É isso o que se diz. Sem frescura.

Após ler o primeiro parágrafo de um livro, que está no post anterior, escrevi esse garoto:


COLAR DE OLHOS


"Um fantasma desprende-se do mar de cal branca, palita uma barreira de dentes e não passa. Ela endurece os muros de porcelana, mantendo os lábios grudados, que amolecem cada vez mais nos vapores de lúpulo.

Ela não desgruda, pois há suor de alfazema que escorre da virilha dos olhos azuis, as continhas de Oxalá. E ela agarra-se num colar no ritmo do afoxé bêbado, afivelando-se ainda mais no beijo na.bo.kov. E ali suga o sino do ouvido; dedilha com a boca embrenhando-se na barba-lixa só pra dizer: dá-me, dá-me.

O espectro se faz homem só de cabeça, flutua numa túnica de toalha, e a totosa acredita. Nem gostosa, nem Balzaquiana; de pequenos seios que já estão crescidos na segunda vez que se olha; jovem, totosa; é o que se diz ao vê-la mais uma vez, entre um gole de cerveja e o estalo que se dá na boca: TO.TO.SA.

O fantasma de lençol branco aproveita a abertura vencendo os dentes no instante do pedido. Ele derrete a língua sem cumprir a permuta; mostra-se vivo numa mortalha branca e vai embora, exibindo no peito mais dois olhos do Carnaval de Salvador".

















2 Disseram:

joão filho disse...

Diogo, surpreso fico eu! Apareça cara para um papo. Um grande abraço e vida longa.

Diogo Costa disse...

Com certeza cara. Abraço!