11 de abr de 2007

No Verbo21

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O noivo alisou o gatilho, experimentou o peso, poderia atirar, e num comando tornou-se estático; um soldado de chumbo. O intruso não sabia que era intruso, apenas foi jogado ali. Enfiou a cabeça entre as pernas e sentiu o cheiro; urina. Um esguicho rápido amarelo-verde, pra lembrar que um bicho ainda estava vivo; pra amolecer as fezes secas e diminuir o volume do que ali já estava. E alguém se divertindo, sentindo-se bem em causar medo.
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Entorpecido, cruzou as pernas; amarrou-as com o lençol e desabou para trás. “Com as pernas cruzadas não escapo de mim mesmo. Filhos da Puta! Agora quero ver! Dei laço!”.
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Aumentou o volume do rádio. Fechou os olhos. Do lado esquerdo da cama, alastrava-se um riso baixo e pausado; “deve ser o rádio, é o radialista rindo da piada do ouvinte”. Puxou a coberta até a altura do ouvido. Forçou cantarolar a música, acompanhando o som familiar do rádio, com as luzes vermelhas aconchegantes, pra tentar dizer que não estava em outro lugar.

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Espremeu o primeiro refrão; “welcome to Hotel Califórnia, such a lovely place, such a lovely face”.


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Trecho do conto "
Hotel Califórnia", que está no Verbo21.

Um comentário:

Janaína Calaça disse...

Soldado de chumbo... O medo visto nos olhos do outro e nas reações do corpo, faz o homem parecer gigante. Quando um homem causa medo no outro, a maior das limitações, porque paralisa, ele se torna um deus caído, que há muito se esqueceu do código dos deuses inventados: piedade.
Isso, seu soldado de chumbo é um deus caído.

Beijos

Jana