Os corpos deveriam estar debaixo dos viadutos; onde sempre os atravesso sem gostar. Guardo as conversas pra mim e não as desovo. Um vício como sugar filtro. Desgrudá-lo da boca. E antes do desenlace, respirar um pouco da fumaça. A garganta queima e fico tonto. As pernas fazem o serviço não sei até quando. Exumo algumas histórias pra guiar minha vida, eu e meu carro; onde imagino Peter Pan na janela, com seu vigoroso sorriso rasgado, em comunhão com Johnny Cash no aparelho de som. A carruagem da lembrança juvenil em meu peito, esse cemitério de histórias, pigarreia e pede desculpas para um amigo próximo dos cinqüenta; que tem a polícia no coração. Eu lembro bem dele, aqui, esperando.
“Meu amigo taquiçêro”; seus olhos esfumaçados são dóceis ao corrigi-lo: ”é taxista. No rosto talhado de sol não há lembrança do escalpo na boca. Mostra-me o implante de dentes e gesticula como se tivesse uma soqueira nas mãos. Boxeia no ar dizendo que entrou pela frente do ônibus, fardado, e recebeu um soco gratuito. Só percebeu a gravidade quando pisou no chão e escutou o trincar na sola do coturno. Ambos não esperavam. O agressor ficou estático lamentando o golpe estúpido. E o amigo caminhou sobre os próprios dentes, vermelhos e duros como rubis. Tirou as algemas da cintura e não algemou. Vestiu as duas nos próprios punhos como soqueiras inglesas. Os passageiros ignoraram como se estivessem numa chuva com um jornalzinho se protegendo de respingos. Apesar de se comprazer em contar, o meu amigo estava cansado daquilo tudo. Exibiu pra mim as cicatrizes e os vazios de carne representando cenas do filme Máquina Mortífera. Disse que era um cão-velho e estava vivo por teimosia. Disse também que o segredo é ter razão no coração; convicto que está certo, fica anestesiado. Tive vontade de rir da ciência-bruta. De fato, já estava morto com aquela pele azul, sem tomar sol, com as bochechas escanhoadas. O bigode sobre os lábios tornava-o um leão marinho de farda. Implantou dentes suficientes para um sorriso, e me abre um agora. Um bom policial, altivo. Vai recitando um banho quente, onde desfaz os nós do ombro, deixando o fluxo massagear a cabeça, fazendo da água uma mulher ruiva que lambe seu corpo. Após o banho, envolve as mãos num copo de vinho e senta-se numa das poltronas da sala. Como um fantasma no canto, estou com ele, escondido na sombra do abajur. Diz que todo homem merece uma jaqueta de couro, uma camiseta preta por baixo, e uma fivela quadrada cromada, pra segurar as calças; bonito, assim. E depois, sentado na poltrona, tem direito a um cigarro pra assistir a fumaça sumir, espaçosa, no silêncio do nosso descanso. Dois homens comuns; eu e ele; sonhando com nossas alegrias possíveis.
Em homenagem ao nosso desejo, giro o botão gordinho do volume. Quero que ele escute “Hurt” do velho Cash. Mas antes de conhecer Johnny, o bom policial cai. Recebemos, meu táxi e meu amigo, a queda. A rotação da música galopa; viro a chave, engato não sei qual marcha, e me assusto com o ronco do motor. Confiro minha cabeça e fujo a toda brida fazendo curva em reta. Esse elefante pesado, de ferro, sacoleja todo o meu corpo quando tento velocidade. Morrer de acidente seria um absurdo pra mim. Pelos vinte anos de táxi, mordo dois cigarros de uma só vez. Sonho com desenho animado, onde isqueiro é maçarico, e mil balas são facilmente desviadas em tempo de baforar círculos de fumaça. Mas é grito. Histeria. E apontam-me sprays de espuma, serpentinas, enquanto queimo assustado meu companheiro tão pálido quanto eu. Gotas de suor escorrem nos pequeninos anéis dourados. Tenho que parar. Então freio de olhos fechados, torcendo a boca, já esperando o acidente. Se não fosse o cinto, estaria morto. Saio do carro agradecendo a mansidão do chão e desmorono. Minha cabeça lateja, e aqui, sentado, faço das pernas pontes para o fino córrego que margeia a rua.
As serpentes coloridas me enroscam ridiculamente. Cobras corais sibilam sobre mim. Os pierrôs, na terrível expressão única da cara, prendem meu corpo com fitas de papel reciclado. É o mesmo papel da janela de casa; a cortina improvisada, que substituiu o alumínio de uso culinário. Do avesso, a lâmina cozia por dentro. Fazia transpirar agonia; o mesmo diante da mãe. O mesmo ambiente familiar, classe média, onde fugia os olhos para os furos da cortina, naquela sensação de desenlace. Dizia que carnaval é sempre igual. Não casou, a irmã morreu, e deseja a morte da cadela; que está cega. “nada de interessante, eu sei. Supermercado, farmácia, casa...”. Escutei tudo, quieto, antes do costumeiro cliente telefonar. Tomei café com ela umedecendo os biscoitos que comprei. Engrossei o café com farelos e boiei neles, pra não ficar aguado em lágrimas. Fiquei triste em ouvir que há uma queda de braço injusta, uma ou duas imaginações realizadas, e só. Minhas visitas, um beijo no rosto, e queda. Ela não atende o telefone. E estou com medo de chamar a polícia.
Minha vida é um monstro de ciclos famintos. Dentro do táxi sou forçado a escutar histórias de lugares. Acertos. Um espólio de cenas às três horas da manhã. Fôlego animal. Bafo-quente. Ordens cutucadas sobre o ombro. Na tensão, escuto muito lixo. Limpei minha cabeça com meu amigo. Desovei e ele achou estranho. Era, na verdade, um colega de farda; um pombo sujo, que pedia milho pra voar. Um sujeito que me fez guardar cenas deformadas que se repetiam na cabeça. Só exumei pro amigo policial. E ele me avisou sobre o trajeto da mãe, que perambulava no mesmo caminho; supermercado, farmácia, casa... Por isso; esperando; quero lembrar deles saboreando um copo de vinho doce, com suas melhores roupas, nas histórias simples de descanso. Mas, não é tão fácil assim; “razão no coração”...
O que posso lembrar?, dela, e seu cheiro em minhas mãos? Seu bago de tangerina que prendi nos dentes enquanto apunhalava? O quê um homem pode lembrar? Esse rombo no teto, minha agonia; meu aperto, que poderia passar um pato voando, hein? Meu amigo, a mãe, e a linda? Essa linda, minha única alegria. Meu violão onde eu dedilhava, comigo, dentro, com o que tenho de mais puro. Tal como uma boca que é tão desleal, pois mãos e línguas mentem com afinco, e depois de bons acordes permitia-se apunhalar; sim, amor, te-peço. E agora? A morte, peço? A morte? O quê o homem em minhas condições pode lembrar?
Um pouco da vida tenho nas mãos. Guardo numa reza, deitado no chão, e fico olhando esse tiro, calibre doze, onde crianças lançaram-me confetes aos punhados. Enfermeiras do diabo. Uma cena ridícula; bandagens de confetes. Agora, fora do carro, os pais delas lutam com a consciência. A minha condição os incomoda. Carnaval é excesso de plumas e som alto pra ninguém ouvir o desespero coletivo. Posso gritar, berrar. E sem querer, fiz todo o trabalho. Fugi uns mil metros e me arrastei até a sombra mais surda de um viaduto. Minha cabeça está pulsando no ritmo do coração. Preciso me deitar. Meu carro está com o pisca ligado; ilumina meu corpo. Pisca laranja. Vermelho-sangue; por uma fenda que escorre histórias proibidas, aliviando a pressão. Só posso pedir um barquinho boiando nesse meu córrego. É melhor assim. Bem estúpido. Ainda que imobilizado por serpentes de papel, o faço navegar com o que tenho de mais comum e humano. As histórias simples esvaem em sangue, fluem no córrego sem pedras e não comprometem a vida de mais ninguém.


2 Disseram:
DIOGUEIRA. NA BOA, TEXTO PRIMOROSO. ESSA PEGADA TAVA DEMORANDO DE VOLTAR.
Valeu cara. Abração
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