A tatuagem do Guns n´Roses no braço direito diverte o garotinho. Todo anão de dois anos incompletos tem os olhos na ponta dos dedos; e esse aqui se distrai no purgatório 30ºC tateando armas e rosas num braço vigoroso.
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Um jovem, grisalho, carrega o garoto com a sensação do peso da vida. E seu vizinho da vitrine, um carretel de varizes serpenteando a pele, desenrola as ataduras pros transeuntes. Mastiga o almoço. Fígado frito. Num corpo usado como quis, até hoje; com Diabetes, pressão alta, e uma coleção de problemas que o acomete na cadeira de rodas. Já o bebê, lábios cereja, babando, ama o pai porque precisa dele; poderia facilmente ser morto por um cão. Passaria por caixa de papelão no asfalto até alguém pedalar, chutar, e fazer um golaço dele, e ainda dar um soco-do-Pelé no ar. O pai pensa nisso e sente vontade de vomitar. O fígado é mastigado até virar uma massa roxa, fedida; na boca de um mendigo de cento e vinte quilos, apodrecendo a conta-gotas, estuporado; ao lado de sua vida.
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Um filho.
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Uma canção sem letra; perspectiva, pura melodia. Mas com ele nos braços; pra se defender; pra fazer uma grana.
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Mendigos russos arrancavam pernas de crianças e a deixavam sangrar, simulando feridas, pra comover os transeuntes... Lembrei do exemplo de Dolo Eventual; quando se é indiferente ao resultado morte. Mas, continuo olhando o rapaz. Com destreza, ele pula dentro do ônibus, arruma o bebê numa sacola-canguru, e desemcapa um violão preto, envernizado. Dedilha Don´t Cry; do mesmo Guns de seu braço; e se emociona, pois a caixa do violão vibra no seu corpo, e o El Mariachi toca perfeitamente sem perder o ritmo em ruído de motor e de moedas pingando, até o fim de linha da Praça da Sé.
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Então disse pra ele que lembrei de minha adolescência, que assobiava Patience com meus amigos, onde brindávamos desejando as mulheres dos vídeos-clips do Guns; disse também que ele tocava pra caralho, dei uma graninha e o cara agradeceu "é pro meu gigante", apontando-o com um orgulho comovente.
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Em pensamento, só pude desejar sorte pro cara. Dava pra ler sua vida naqueles gestos. Dei uma grana pro mais novo; muito pretensioso, tal como fila de hospital, onde médico residente escolhe o mais novo pra salvar. "É esse aqui".
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Era filho dele mesmo. Parecia. Já tinha bigodinho mexicano e artrose nos dedos. Enfim, na volta, apareceram mais dois, ainda mais jovens, e muito agressivos. Nem quis olhar nos olhos. Disse um rápido "não-tenho-nada-meu-velho, vá lá", pra ser entendido, pra não dizer "de soslaio", pois na rua é de lado mesmo que se olha; na medida; ignorando ordem sem intimidar. Mas o 38 foi apontando pra senhora do lado; um dedo debaixo da camisa, talvez. Dois moleques. Poderiam dizer que estavam brincando, sem extorsão. A senhora acabou me fazendo de fiscal, como se dissesse "só levem moedas", pois eu estava calado e muito tranquilo, quase esperando um "quié" de um deles. "Nada velhinho", eu responderia, com o mesmo olhar.
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Levaram moedas.
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Entrei no ônibus beirando o cinismo, controlando o termômetro de minha consciência; nem armas, nem rosas.


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