07/02/2008

Olhar atento

Ele quer que ela beba. Um estratagema. Oferece a boca, cola os lábios e cospe cerveja dentro. A mulher quase dá um tapa. E uma garota olha pra você. Já estava olhando antes. Ela percebeu seu colar de aço, pendurado no pescoço, que lhe identifica; você não bebe, não dança, não beija. Está de calça jeans e bota. Parado. Em frente ao casal de quarenta anos e a garota.

Ele não é o pai, mas toma liberdades e brinca com as duas. A garota provoca. De abadá reformado, biquíni por baixo, cabelos cacheados; todo o frescor da juventude sorrindo pra você. Dá pra ver o contorno da boca, os dentes, a gengiva saudavelmente rosada... Quer que chegue mais perto, mas é sutil. Não dá um passo. Não demonstra tanto, mas sorri só pra você. Rimos juntos com as brincadeiras do homem. A mãe se afasta pela segunda tentativa de fazê-la beber. Ele diz um "porra" descontente, quase cantado. A garota exibe uma garrafinha de água, abre a tampa, e derrama na perna dele.

Você sorri junto, na medida da boca ela, enquanto o homem abana a perna pelo frio que arrepia. A meia está empapuçada de água gelada. Ele agacha, tira o tênis, e torce. Talvez seja a hora. Ela tira os cabelos dos olhos. Fica séria, olha para os lados e sorri de novo. Então alguém lhe chama pelo sobrenome e você tem que ir embora. Sem saber onde mora, sem uma idéia idiota; simples, como um bilhete com telefone. É aquilo, "talvez uma palavra estragasse"; quase como How Soon Is Now, do Smiths. Clica aqui pra ver.

É o carnaval de Salvador. Mas não terminou ao modo "Smiths". Só tirando onda e contando essa estória.

No post anterior havia um trecho de um conto inédito. Alguns sites gostaram e pediram que continuasse em "off", inédito. Um camarada que não conheço pessoalmente até comentou no blog dele, Cozinha do Cão. Nem agradeci o comentário e a força. Não é igreja, patota. É um lance de gosto. Talvez identidade, pois o cara sorve Kerouac e Dylan. E lá tem um trechinho pequeno que gosto também.

No carnaval trabalhei sem maiores problemas assistindo chuva de bandanas, pulseiras inúteis e bastões infláveis com marca de Banco; o povo brigou por essas merdas. Catei alguns "brindes" para meus cachorros brincarem e destruírem em dez segundos.

Nossa juventude é sugada pela publicidade. As capitanias hereditárias aproveitam os camarotes corporativos, fumam charuto aos quinze anos e só bebem uísque ninfeto, de doze; o resto que trabalha, em sua maioria, são ladrilhados. Talvez numa esquina dê ou receba um soco prateado, brilhante de "soqueira inglesa", no esquema bala perdida, gratuito; um lance sem sentido, guiado pelo estômago e pela mais estúpida sorte. Eu só agradeço por estar vivo e sobreviver nessa merda toda. Tive sorte e só desejei isso.

Saí com uns amigos. Os mesmos de sempre; um cuidando do outro. Desviando do caos dentro do caos. É um exercício. A altura é fator importante. O olhar atento é da alma; talento. Dá pra se salvar segundos antes. Puxar a garota pela mão, entrar num beco e sentar em frente ao mar; bem ao lado de uma caixa de isopor cheia de cerveja.

Depois?

Adormeça a língua com exatas duas doses de uísque, beije a garota, amanheça o dia, e se for legal não esqueça de pegar o telefone.

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