O tiozão rodriguiano, Nelson, após perder o irmão, relatou que na vida temos três ou quatro pessoas determinantes, e quando uma delas morre, uma parte de nós morre também. No hospital, lia "Capote" de Gogol para me manter acordado.
Parei. Iniciei Joyce e deixei pela metade. Após um mês da morte de meu pai, li "Cartas à um jovem poeta" de Rilke. E nesse emaranhado de intenções não cumpridas, parei por mais um tempo refletindo o último:
"Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade".
Ainda em casa, antes de levar meu pai ao hospital, escrevi em pequenos papéis e simultaneamente me repreendi por escrever fatos pessoais como se não estivesse ali; como se fizesse do sofrimento um laboratório. Escrevi, inconsciente, um parágrafo do que se passava. Um absurdo quase insuperável. Quase não me perdoei; me peguei escrevendo como um sonâmbulo. Não sei se era literatura. Não quis retornar a ler. Está lá.
Após 15 dias dias ou mais, sem pretensão alguma, me acalmei: viver impunemente sem deixar nada, além de matéria orgânica, seria um desperdício.
Continuei minhas leituras. Estou maravilhado com Joyce; bem como Dedalus ensina as formas de arte, estou no primeiro estágio quando se depara com o belo: no calor da emoção primitiva; no calor do impacto. Sem maiores teorias: estou maturando esse aforismo pessoal:
"Viver sem deixar nada, além de matéria orgânica, é o mesmo que viver impunemente".
Ohh! Que drama! Somos cheios; "ouro-de-tolo" de Raul Seixas aplica-se também. Irei fechar meu novo recomeço postando um exemplo de como se inicia um romance; uma síntese sonora que representa todo um contexto:
"Lolita, luz da minha vida, fogo de meu lombo. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO. LI. TA.".
12/07/2007
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