18/05/2007

Augusto, conduza Anjos

É. Fiquei sem postar no blog. Algo aconteceu. Dessas fatalidades estúpidas que envolvem uma história. Foi isso. Uma queda. Um osso quebrado. Um coágulo e uma trombose arterial.

Que Augusto dos Anjos socorra essa ordem estúpida.

Chegávamos juntos. Os trilhos imaginados e construídos de olhos fechados; sintonia de conversa calada; podíamos ficar horas assim.

Se rápido, era humilde para que eu alcançasse as construções intelectuais. Indomável. Um paradigma insuperável que saiu de um quarto de pensão com um arame estendido que salvava a comida dos ratos. E se fez gente.

Recentemente, ganhou a única vaga concedida a cada ano: uma bolsa no FMI, escolhido entre vários especialistas em administração pública pelo Leviatã-mor. Uma só vaga por país. E ele estava lá, o meu amigo; seu maior legado. Dane-se FMI. Queria-me lá, para fazer carne-de-sol na janela em pleno inverno de Washington; e fez; viveu meses como Kerouac e telefonou-me puto sobre o preço dos cigarros, mas, muito feliz por ter ido pelos méritos aqui, do Brasil, prometendo-me que poderia melhorar as condições de financiamento para obras públicas; claro, ele foi colaborador da Lei de Responsabilidade Fiscal e tinha sonhos, por isso ganhou a bolsa no Fundo Monetário Internacional. Sonhava com um governo que reservasse mais dinheiro para o público, essencialmente, e não apenas para folha de funcionalismo e dívidas.

E assim, ano passado, mais um convite. Para Londres. Os gringos queriam saber mais sobre seu trabalho em novas modalidades de contrato de concessão para execução de serviço público; parcerias-público-privadas. E a Bahia configurando-se o primeiro Estado do país a tornar isso possível; pioneiro no Brasil. Um grande imbecil quis ir em seu lugar. E o governador atual barrou o convite. Eu sei de tudo. Contava-me os podres dos narcisos. O convite é claro, tenho a cópia aqui, em inglês; "to Costa". Depois apagaram a luz. Os beócios do governo, políticos do PT, terminaram com sua equipe e posto. E ele ficou em casa. Mandando todos à puta-que-pariu, pois, não era político e entrou por concurso público - 1º lugar, diga-se. Sem esperança e reconhecimento, em poucos meses estava fraco e suscetível a um acidente estúpido e fatal. Em casa.

Nesse rascunho torto, nessa ordem, "espero que o tempo entre nós não seja tão importante e o que realmente importe na nossa relação sejam os instantes e que o amor seja pleno e sereno... que nunca exista o vazio de caminharmos na mesma direção; se eu andar lento, que você me acompanhe, se eu andar rápido que você me alcance. Mas para que este vazio não ocorra é necessário que não lhe falte coragem nem desejo de correr e que sempre seja humilde de caminhar um pouco mais lento. Pai, é compartilhando os instantes comigo, seu Filho, é que você jamais se sentirá só" (José).

Eu te amo, cara.

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