11/04/2007

Gratidão

"Uma velha com Parkinson está sentada numa cadeira de plástico. O plástico está rachado em uma das pernas. Uma bolota de Durepoxi impede que a velha caia no chão. Bolotas mal feitas; talvez ela mesma tenho feito aquilo; e seu marido, ganhando 400 reais, querendo comprar uma geladeira nova, pois a da cozinha está podre, pingando rios de água; um navio enferrujado na cozinha.

Ela já tentou se matar duas vezes. Era vaidosa, sorria nas fotos. Depois da doença, quis morrer; tinha vergonha dos tremores. Ela sobreviveu às tentativas de suicídio. Hoje, parece conformada.Essa é parte da estória. E voltarei à ela.

Quero dizer que irei passar um tempo calado no meu blog de mini contos; tenho alguns sonhos pra realizar. E vou contar. Resolvi registrar algumas angústias; fim-de-ano é assim, sentimentos estranhos. Voltemos à estória. Uma velha com Parkinson, trêmula, sentada numa cadeira de plástico. Cadeira remendada. Um perigo. E a geladeira na cozinha está podre, pingando rios de água; um navio enferrujado.

Então você pensa: eles têm comida, ao menos. Tudo bem. E atenção? Reconhecimento?

Dos filhos, parece que apenas uma filha se importa; parece que apenas um neto consegue enxergar a cadeira; todos já passaram as férias ali, ganharam esperança, elogios, foram amados. Hoje fazem visitas obrigatórias. Desejam um feliz-natal hipócrita; a obrigação que a mídia nos faz lembrar; feliz natal; feliz ano novo, mãe. O senso comum é hipócrita e demagogo. É um interesse de consumo. Mas isso é outro assunto. Na casa da velha, o cupim comeu tudo. Só plástico resiste. E plástico rachado, remendado; um risco.

É assim, somos usados; o tempo engole nossos carinhos. A casa me parece pequena; o muro ridiculamente pequeno, transponível facilmente. Consigo ver o fim do terreno; as laranjeiras morreram. Só as flores resistem na cerca. A estante está podre. Eles não conseguem alcançar a última prateleira. Encolheram. As revistinhas estão lá em cima. O avô queria lê-las. A radiola não toca mais. Permanece como objeto de decoração. Somos objetos de decoração; velhos, figurantes. Feliz ano novo, pai. Feliz ano novo, mãe.

Então escrevo. Voltei pra casa. Prometi a mim mesmo que cuidarei de meus pais. Fiz promessas pessoais, ficaria melódico dizê-las. Vou comprar umas cadeiras novas, simples, baratas. Fazer um carinho naqueles cabelos brancos. Precisava registrar; dividir segredos com os leitores daqui. Escrever é cumplicidade. Dor dividida. E por aqui, revelei esse segredo.

Aos que passaram nele,
Ana Paula Maia, a musa venal, escritora visceral, escreve-pensa muito bem, Tarantino mulher, prosa sensacional, maldita-estrela-guia; Claudio Eugênio Luz, professor, escritor, prosa sutil; nessa solidão de escrever, só falou quando gostou; Ivã Coelho, vizinho, em sua prosavulsa; um abraço, continuem vivos, sorte pra vocês.

Anderson Dantas, fonte de pesquisa; um poeta que diz o que a gente precisa dizer. É isso cara, apesar da província, sobrevivo. Aqui, táxi não troca 50 reais; quase ninguém tem 50 reais; essa grana não circula; essa grana esquenta poucos cofres; é canudinho; é nota enrolada pra cheirar cocaína. Nova Lei de Tóxicos; agora, usuário não será preso. Nossos filhos estão usando; só eles podem comprar cocaína, por isso humanizaram o usuário; agora são os nossos. Dostoiévski ainda está certo, mas, não temos Raskolnikov´s; os nossos matam porque gostam, talvez.

Um abraço ao editor Edson Cruz, onde dei a cara a tapa; um sonho realizado, esse, de ser publicado no
Cronópios; uma língua mastigada, uma noite com Led Zeppelin e uma Sharon Stone de cabeça raspada; tenho que ficar em silêncio, retido; pensando nos amigos que aqui passaram. Aos meus amigos pessoais, caras, estamos num Teatro dos Vampiros; o Vento do Litoral vai levar esse merdaçal embora. Desejo esperança e sorte. Desejo realizar uns sonhos possíveis.

Abraços,

Salvador, 31 de Dezembro de 2006".

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Eleger amigos literatos é complicado. Fico com os gratuitos (lembrado por Joca Terron, sobre a última entrevista do chileno Roberto Bolaño).

Não faço tipo de nada. Mal conheço esse dois escritores. Quero dizer que esse foi o último post do meu extinto blog. "E ainda dizem Feliz Ano Novo", editado mais uma vez, inicialmente publicado no Overmundo. Percebam os cortes que fiz; cortes necessários: muita besteira-verborrágica. Não tive, e não tenho, alguma pretensão comercial em me expor; foi desabafo e gratidão. Faço questão de reeditar por aqui.

Alguns sonhos possíveis foram realizados: cadeiras novas.

2 Disseram:

Janaína Calaça disse...

Este texto me atingiu em um ponto que acho que todos os textos de alguma forma devem nos atingir: desencadeou reflexão. Não falo de reflexão superficial, momentânea, fast-food. Passei a manhã inteira pensando na imagem deste casal velho, em uma casa deteriorada, da cadeira de plástico e do cupim corroendo tudo. Pensei também nesta posição de vida-limbo, à espera de que algo retroceda ou de que avance de vez. Pensei nos meus velhos, que cada dia estão mais velhos, e de como o olhar deles está mudando, misto de cansaço e medo de que possam passar por isso tb. Pensei, lendo seu texto, em como não pensamos que um dia teremos estes olhos e de que ainda não nos tocamos de que dá pra se fazer algo para varrer este medo nos olhos que um dia nos viram por aí, errando passos e segurando a nossas mãos para que a gente não se esborrachasse no chão. Na verdade isso perdura até hoje. Sinto até hoje o poder destas mãos, mesmo com eles morando longe.
Seu texto me fez pensar muitas coisas e eu tive que voltar aqui para dizer.

Abraço

Jana.

Anônimo disse...

Uma gratidão declarada tem mais força a que um "feliz ano novo" comercial-obrigatório. De longe, pensando, atento.

Valeu pela visita Jana.

Abraço.


Diogo.